Isabelle Vinhas de Miranda
Você não se interessa por nada. Sua vida é chata, tão chata que seu chefe o demitiu, seus filhos saíram de casa e sua esposa está dormindo com o vizinho. Você vê seu futuro escorregando de suas mãos e não consegue se mover, então você dirige. Você está sem rumo, parado em qualquer sinaleira, e um papel colado em um poste chama a sua atenção. Você nunca foi curioso, mas, em vez abrir um pacote de salgadinho na frente da TV, seu corpo o leva para aquele endereço.
Você chega sem saber o que esperar. Sua mão encosta na grade de ferro gelada. Você sente o estômago embrulhado e percebe que devia ter comido algo além de Cheetos e Coca-Cola de almoço. Você passa pelo portão e se arrepende. Seus pés querem ir embora, você pensa em desistir, mas ele está ao seu lado e o conduz para dentro.
Você duvida que tenha sido uma boa escolha, mas você entra. Você olha para os lados e todos estão acompanhados. Você lembra que no cartaz dizia que não era necessário ter par, mesmo assim você sua, até manchar o sovaco e o suor escorrer pelas suas costas. Você vira seu rosto para o chão, mas sabe que todos os olhos estão em você. Você nota seu tênis sujo e velho. Você quer se esconder, mas o homem da entrada agora está parado a trinta centímetros de você. Você responde que nunca tinha feito aquilo antes, que era sua primeira vez.
Você faz o que o homem manda, tira os sapatos e arregaça as mangas da camisa enquanto eles esperam que você se acomode no centro da sala de frente para o espelho. Você imita os movimentos com dificuldade. Você não tem ritmo. Você passa cinquenta minutos se contorcendo e tentando se encaixar. Você pula as partes em dupla e implora para ter nascido mais flexível. Você falha em todas as posições até acabar a música e o homem apagar as luzes. Você fica parado por alguns minutos até decidir voltar ao carro.
Você senta no volante enquanto espera que suas energias retornem para seu corpo. Você liga o carro, engata a marcha e sai. Você não sabe para onde ir, mas você vai para algum lugar. Você para na sinaleira mais uma vez sem planos e vê qualquer carro na sua frente. Você imagina o motorista mais jovem que você, com todo um futuro brilhante ainda por vir. Você avança por alguns quilômetros se mantendo colado àquele carro. Você vê um diploma, uma loira gostosa, relógios de marca e três filhos.
Você precisa sentir algo, então resolve segui-lo. Você imita as mexidas de volante, para a esquerda e para a direita. Você pisa no freio, você acelera. Você quase consegue prever os movimentos e se adianta antes mesmo do carro arrancar. Você não tem hora para voltar para casa. Você olha para suas mãos suadas. Você sente o cheiro de queijo com isopor. Você não se interessa por nada. Sua vida é chata, tão chata que seu chefe o demitiu, seus filhos saíram de casa e sua esposa está dormindo com o vizinho.