Aluga-se


Isabelle Vinhas de Miranda

É preciso passar por quatro grades e um lance de escada antes de chegar ao apartamento. Logo na entrada, não existe mais o pequeno quadro de santo, que dava boas-vindas àquela família que ali morava.

Nota-se, já de cara, as paredes brancas vazias. Antes ocupadas por estantes, onde eram guardadas risadas e caixas de bombom.

A sala era onde as conversas de adulto aconteciam. Pelos espelhos, a visão dos tios, dos parentes, das visitas. E da rotina.

O menino jogava bola naquele infinito corredor. Hoje, ele vê que o corredor talvez não fosse tão extenso assim. Ou será que foi ele que cresceu?

Na parte da frente do apartamento, o quarto da irmã mais nova. Do lado, o dos pais.

Apesar do andar baixo, a vista do parque é eterna. Na rua, o barulho continua. Os carros nunca pararam.

A sacada era o lugar preferido da mãe. Me pergunto se não era de lá que ela observava o menino pulando o parapeito até o acesso que dava para a rua.

Hoje em dia, mais obstáculos foram construídos e não se pode mais descer ali. Mas ela ainda continua olhando o menino, de outra sacada, mais para cima.

O quarto do menino certamente era o mais divertido. Da janela, podia se pular tanto para a sala quanto para o telhado do vizinho.

Toda uma faculdade de medicina feita sentado em uma pequena mesa encostada na parede e ao som de um piano do bar debaixo. Tanto, que ele até poderia ter se formado em música.

O que será que ele colecionava naquela época? Bonequinhos de chumbo, carrinhos, jogos ou qualquer novidade da época. Agora, sei que ele coleciona caixas de madeira.

Tantas coisas cabem dentro delas. Guardam-se as memórias boas daquilo que já passou e que não pode nunca morrer.

Sei também que não era só no corredor que o menino jogava bola, mas em toda casa. Ele devia incomodar os pais. A bola chegava na cozinha. Nela, uma mesa gigante para receber todas as mulheres de todas gerações.

Mas o menino também ajudava. Ia todos os dias buscar quatro litros de leite e um pão que até hoje se lembra do gosto.

A dispensa cabia bicicletas e o mundo todo. Agora parecer não caber mais as necessidades de uma família inteira.

Não estão mais ali as gaiolas com os vários passarinhos. Será que voaram junto com os sonhos do menino?

Os azulejos brancos do banheiro e o piso de madeira são os mesmos. A única coisa que mudou naquele apartamento são as marcas.

De cupim nas portas, dos outros proprietários que passaram depois do menino e do tempo: onde ficava uma mulher de cabelos escuros, calça e blusa brancas, um pouco sem jeito com o registro, dá agora lugar a uma placa de aluga-se. E onde ficava o menino, dá agora lugar a um pai.

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Isabelle Miranda - isavmiranda

E-mail: isabellevmiranda@hotmail.com

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