Isabelle Vinhas de Miranda
Você nunca me conheceu, mas todo mundo diz que a gente se parece. Meu pai testemunha que temos as mãos idênticas. Dedos finos, longos e magros. Compridos demais, até nos pés. Por isso, sempre evitei usar chinelos. Me pergunto qual a cor de esmalte que você passaria. Certamente não os coloridos. Quando eu olho sua foto, vejo que somos parentes, mas não consigo enxergar onde os traços se fundem. A sobrancelha pesada caindo logo acima do olhar demorado. O sorriso que esconde um desconforto de estar ali sendo registrada para a eternidade, mas percebo uma espontaneidade que eu nunca tive. O cabelo denso e tão alinhado que parece ter sido encenado daquela forma. Oposto do meu, como lamenta minha mãe. Talvez sejam os olhos, ambas com os mais escuros da família.
O que sei de sua história veio pelas palavras da minha vó. Ela fala de sua viagem ao Rio de Janeiro sozinha. Largou o noivo gaúcho e um casamento arranjado e todo um enxoval já bordado, pegou um ônibus e simplesmente foi. Conheceu lá alguns homens, até que um aspirante a oficial da marinha conquistou seu coração. Eu imagino a sensação de olhar pela janela e ver, no caminho que traçaria as gerações seguintes, o desconhecido. Se não fosse meu bisavô, onde eu estaria? Você sentiu medo? Hesitou em algum momento? Algo que tivessem falado poderia ter lhe feito mudar de ideia? Talvez tenha sido a coragem o que passou ao longo das gerações. Ou então a ousadia.
Eu também embarco sozinha, mas para cruzar um oceano. Sou teimosa, quero encontrar o amor. Acho mesmo é que estou fugindo. Daquilo que meus pais imaginavam para mim, do concurso público, da estabilidade financeira. Nem sei se quero ter filhos, se pretendo ter casa própria. Evito falar essas palavras em voz alta, minha mãe me repreende. Mas a verdade é que não consigo me comprometer nem às plantas. Pode dar tudo errado. E se der? E se tivesse dado? Talvez não fomos feitas para o mundo das fantasias.
Foi você que tentou encerrar um ciclo de gerações seguidas de mal amores. Mas não se foge do destino: muito amou o marido, pouco foi amada e amou demais os filhos. Dizem que poder escolher gostar de alguém é um privilégio, mas, para mim, é uma prisão. Desejo mesmo nunca ter conhecido os homens. Seja no estado que for, no país que for, no continente que for, eu sou a consequência de todas as escolhas que vieram antes de mim. Talvez nossa história seja apenas uma história e não possa ser nada mais.