Isabelle Vinhas de Miranda
Caminhando pela rua, vejo no chão uma fotografia, daquelas que estão em extinção. Procuro seu dono. Alguém sem pressa, que esperou horas até que a imagem se revelasse nos produtos químicos. Mas, todos têm passos rápidos. Busco, então, na foto, rostos. Observo um porta-retratos dourado. Em destaque, uma menina de olhos puxados e um menino loiro de olhos azuis. Devem ser pessoas importantes. Filhos, netos? Quem sabe o casal quando eram crianças? Por que tirariam uma foto de uma foto? Me perco na estranheza daquela fotografia sem dono. Decerto o mau ângulo ou a ausência de um elemento principal.
O porta-retratos está sob uma mesa branca, talvez de cabeceira. Alguém daquela rua teria perdido ali parte de seu passado e não fazia ideia. Será que quando chegasse em casa daria falta dela e refaria o caminho me encontrando aqui? Continuo a absorver a imagem o máximo possível antes que me parem. Começo pelo lado direito. Um abajur com uma luz amarela cortado pela metade. Não sei se é dia ou noite. Na ponta de baixo, uma vela que nunca foi acesa em um suporte bege comprado no um e noventa e nove.
Meu olhar vai para o outro lado. Em um vaso de cristal, um enorme buquê de rosas, também cortado. Em outros tempos, as flores fossem recordações de bons dias. Mas, aquelas pareciam representar a angústia, talvez um pedido de desculpas. Consigo sentir o cheiro delas se decompondo no quarto, da mesma medida em que os filhos cresceram e a relação do casal se desgastou. Aproximo a fotografia do meu olhar para ver se seu autor teria feito um auto registro, mas há somente um espelho redondo inutilmente posicionado. O último objeto, bem no canto esquerdo, uma xícara de vidro, manchada com uma cor escura no fundo. Tão amarga, que não tivesse mais volta.
Viro a foto para mais informações no seu verso. Noto os números zero e dois em caneta preta. Data em que foi tirada? Segunda parte de uma sequência? Número daquela casa? Ano em que se separaram? Ou apenas dois números aleatórios? O conjunto daqueles elementos me faz sentir como se alguém quisesse congelar um tempo que não voltaria mais. Ou, então, após revelada, a foto mostrou-se inútil por não representar coisa alguma e seu dono preferiu descartá-la. Somente o que sei é que as crianças nunca cresceram, a luz nunca se apagou, a vela nunca derreteu, as flores nunca murcharam e o café nunca esfriou.
Hoje, essa foto de ninguém está repousada em minha própria cabeceira para me lembrar que não sou a única com um passado deixado para trás.